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Os conflitos da urbanização na Villa 31 em Buenos Aires

Raquel Rolnik

24/01/2020 17h53

Fotos: Raquel Rolnik

Originária dos anos 1930, a Villa 31, localizada nas proximidades da estação de trem de Retiro, zona central, é uma das mais antigas da cidade. Resistiu a processos de erradicação em vários momentos da história e resiste até hoje, com quase 70 mil moradores. 

Exatamente nesse momento, ela está vivendo mais uma uma disputa em torno de um projeto de urbanização. De um lado, aconteceram diversas intervenções, como a criação de novas entradas e conexões da vila com o restante da cidade, que foram muito bem recebidas pela população. De outro, há uma tentativa de remover uma parte das casas e deslocar as pessoas para um conjunto de prédios que estão sendo construídos no local, o que tem gerado resistência. Aliás, este foi um tema na última eleição presidencial da Argentina, já que Maurício Macri, ao contrário das expectativas e das obras na Villa, perdeu a eleição no local para o atual Presidente do país, Alberto Fernández.

As críticas em relação ao novo conjunto são várias: unidades habitacionais muito pequenas, sem nenhuma flexibilidade para crescer; que não tem instalação de gás e, portanto, terão que ser usado eletricidade para cozinhar; uso de materiais de baixa qualidade; e, principalmente, a preocupação com os custos de condomínio e da própria moradia, que não se sabe exatamente como vão vão acontecer, o que causa temor de endividamento e dos seus efeitos. 

Estive na VIlla 31 em novembro de 2019 levada pela professora Maria Cristina Cravino, Universidad Nacional de General Sarmiento. Lá conversamos com as pessoas que estão sendo ameaçadas de remoção e ouvimos suas preocupações. Ao retornar recebi esta excelente reportagem publicada na Página 12, escrita e protagonizada pelas mulheres que lideram a luta da Villa 31, que compartilho com vocês. Abaixo mais fotos que fiz no local e dois parágrafos da reportagem.

"Con la asamblea feminista de la villa nosotras discutimos todo porque discutimos cómo queremos vivir", dice Graciela Duarte, vecina y militante del Movimiento Popular La Dignidad Corriente Villera, en la villa 31 y 31 bis. Y con esa frase resume también el objetivo de la asamblea feminista que se propuso desenmascarar y resistir el proceso de urbanización en una de las zonas de Buenos Aires más codiciadas por el gobierno metropolitano y el capital inmobiliario.

La derrota electoral del oficialismo en la villa fue estrepitosa. Se sucedieron, entre otras, explicaciones de racismo arquitectónico: según funcionarios, lxs habitantxs no valoran el "cemento alisado" (sic). En poco tiempo desembarcó una sede del Banco Santander y, hace días, un MacDonald's en los ingresos del barrio, una zona estratégica para la logística portuaria y la especulación del suelo. A su vez, el BID (Banco Interamericano de Desarrollo) proyecta su sede en un "edificio-puente" que uniría la villa con el barrio de Recoleta. Lo que está en juego es mucho: los terrenos de la villa se quieren vender para pagar deuda contraída por la ciudad con organismos internacionales de crédito.

 

Sobre a autora

Raquel Rolnik é arquiteta e urbanista, é professora titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Foi diretora de planejamento da Secretaria Municipal de Planejamento de São Paulo(1989-92), Secretária Nacional de Programas Urbanos do Ministério das Cidades (2003-07) entre outras atividades ligadas ao setor público. De 2008 a 2014 foi relatora especial da ONU para o Direito à Moradia Adequada. Atuou como colunista de urbanismo da Rádio CBN-SP, Band News FM e Rádio Nacional, e do jornal Folha de S.Paulo, mantendo hoje coluna na Rádio USP e em sua página Raquel Rolnik. É autora, entre outros, de “A cidade e a lei: legislação, política urbana e territórios na cidade de São Paulo” (Studio Nobel, 1997), “Guerra dos lugares: a colonização da terra e da moradia na era das finanças (Boitempo, 2016) e “Territórios em Conflito - São Paulo: espaço, história e política” (Editora três estrelas, 2017).