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A Cidade é Nossa

A Cidade é Nossa

Não é só #elenão, não é só esta eleição

Raquel Rolnik

2001-10-20T18:13:16

01/10/2018 13h16

Embora a imprensa tenha noticiado as manifestações do último sábado como uma espécie de Fla-Flu eleitoral, ou seja, apresentando os atos simplesmente como manifestações contra e a favor um dos candidatos desta eleição, na verdade os atos massivos do último sábado vão muito além da oposição a Jair Bolsonaro e muito além das expectativas de resultados das urnas.

Os atos reuniram mais de 100 mil pessoas só no Largo da Batata, em São Paulo, e na Cinelândia, no Rio de Janeiro, mas ocorreram também em cidades pequenas, médias e grandes, pelas capitais e o interior do país, e também em capitais e cidades menores da América do Norte, Oriente Médio, Europa e África. A cobertura da grande imprensa, entretanto, além de minimizar a extensão destas mobilizações, e, num exercício de suposta independência jornalística, concedeu a estas manifestações o mesmo espaço que os atos pró-Bolsonaro, infinitamente menores e mais restritos, e não mostrou quem estava nas ruas.

A constituição de um movimento de massas de extrema direita no Brasil, racista, fascista, machista e homofóbico, que prega a violência como solução dos conflitos e mazelas sociais e a ditadura como resposta à crise de representação política que atravessamos, foi uma espécie de sinal de alerta que juntou, sob a liderança das mulheres, movimentos e pautas que tem crescido no país já há alguns anos, na sombra dos partidos políticos e mandatos eleitorais.

Trata-se, em primeiro lugar, de uma nova onda política feminista, que mais do que reivindicar um lugar numa sociedade controlada por homens, questiona a própria lógica patriarcal e machista que estrutura nossa sociedade e suas instituições. E mais: trata-se da emergência, como nunca desde o movimento abolicionista no Brasil, da luta anti-racismo como elemento crucial e central do nosso modelo de desigualdade e opressão. A mobilização contra a violência é o fio que enlaça estas lutas: o feminicídio e homofobia, a violência doméstica, os estupros e todas as formas de agressão cotidiana contra mulheres e LGBTTs se encontraram sábado nas ruas com a resistência contra o encarceramento em massa e genocídio sistemático do povo negro.

Por fim, as ameaças de destruição da nossa frágil e incompleta democracia levou também às ruas aqueles que apostam que a resposta tem que ser seu fortalecimento e não sua supressão, seja qual for o resultado das eleições, seja qual for o nível de precariedade de nosso sistema político.

As mensagens de sábado – as maiores mobilizações de rua desde junho de 2013, quando estas pautas também estiveram presentes, mas infelizmente foram capturadas pela equação simplificadora da luta anti corrupção, gerando inclusive este movimento de extrema direita – não surgiram neste embate eleitoral e não se esgotarão no final do segundo turno. Feministas, anti-racistas, LGBTT, anti-fascistas e todos que lutam contra todas as formas de violência e opressão saíram do armário.

Este é o fenômeno novo na política brasileira – e mundial – que ainda vai demandar muita imaginação política para reconstruir sociedades e institucionalidades que o representem. É #elenão hoje. Mas isto é apenas o começo.

Sobre a autora

Raquel Rolnik é arquiteta e urbanista, é professora titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Foi diretora de planejamento da Secretaria Municipal de Planejamento de São Paulo(1989-92), Secretária Nacional de Programas Urbanos do Ministério das Cidades (2003-07) entre outras atividades ligadas ao setor público. De 2008 a 2014 foi relatora especial da ONU para o Direito à Moradia Adequada. Atuou como colunista de urbanismo da Rádio CBN-SP, Band News FM e Rádio Nacional, e do jornal Folha de S.Paulo, mantendo hoje coluna na Rádio USP e em sua página Raquel Rolnik. É autora, entre outros, de “A cidade e a lei: legislação, política urbana e territórios na cidade de São Paulo” (Studio Nobel, 1997), “Guerra dos lugares: a colonização da terra e da moradia na era das finanças (Boitempo, 2016) e “Territórios em Conflito - São Paulo: espaço, história e política” (Editora três estrelas, 2017).