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A Cidade é Nossa

A Cidade é Nossa

#elenão vai muito além de Lula, PT e esquerda

Raquel Rolnik

05/10/2018 13h16

Não por acaso, imediatamente após as manifestações convocadas por mulheres no dia 29/09, assistimos a um verdadeiro ataque de interpretações que procuraram, inclusive, relacioná-las à possível subida de Bolsonaro nas pesquisas subsequentes. Três foram estas estratégias: ignorá-las e residualizá-las, caracterizá-las como expressão de uma "elite branca de esquerda" e defini-las como atos disfarçados pró PT. Uma última também foi largamente utilizada nas redes: a caracterização dos atos como expressão de mulheres e LGBTT "degenerados". Esta última não merece nossos comentários e refutações. As anteriores sim. Inclusive porque seu efeito foi claramente a  deslegitimação de um movimento – e portanto uma reação à sua potência transformadora.

A primeira estratégia largamente utilizada pelos grandes meios de comunicação: os atos, quando apareceram na grande mídia, não revelaram sua extensão. Vamos então a eles, considerando só as cidades brasileiras em ocorreram atos. O levantamento feito por  Jonas Medeiros, pesquisador do Cebrap (Centro Brasileiro de Pesquisa para o Planejamento), que partiu das convocações aos atos feitas no facebook, registrou manifestações em 290 cidade através de sua rede. Já o levantamento da Mídia Ninja, checado através de fotografias e vídeos enviados por sua rede, chegou a 358 cidades.

Ainda que utilizem metodologias diferentes, ambos os estudos mostram pontos de convergência. Em primeiro lugar, a extensão, porque as manifestações aconteceram nos 27 estados brasileiros. Depois, num segundo fenômeno que chamou muito a atenção, o fato de terem ocorrido manifestações em cidades de todos os tamanhos. Aconteceram, por exemplo, em 78 municípios com população de até 50 mil habitantes, incluindo – fenômeno incomum no cenário das manifestações de rua – em cidades de três, quatro, cinco mil habitantes.

Além disso, houve manifestações em todas as cidades com mais de 500 mil habitantes, incluindo não apenas as capitais, mas cidades dos pólos regionais e do interior do país. O estado de São Paulo foi o campeão no número de manifestações, que aconteceram em 59 cidades, seguido por Minas Gerais, com 43, e pelo Rio Grande do Sul, com 27. O mapa abaixo revela esta extensão – nele estão mapeados apenas 294 cidades e certamente houve mais. Apenas os grupos, cuidadosos, ainda não tiveram tempo de acabar o levantamento e checagem. Ou seja, ao contrário do noticiado, trata-se de um movimento extenso e absolutamente espalhado pelo país.

Cidades onde ocorreram manifestações contra Bolsonaro. Clique para ver o mapa interativo.

O segundo argumento, amplamente noticiado pelos meios de comunicação, de que se tratava de um ato da "elite branca de esquerda", foi baseado no levantamento feito pelo professor Pablo Ortellado, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da Universidade de São Paulo, este cobrindo apenas a cidade de São Paulo. Examinando os dados divulgados pela equipe de Ortellado, infelizmente não é possível corroborar com sua interpretação: apenas 25% dos participantes (e isto em São Paulo apenas!) ganham mais de 10 salários mínimos, e o percentual de pretas e pardos que compareceram ao ato foi de 30%, o que corresponde a aproximadamente a participação deste grupo na população da cidade de São Paulo. Ou seja, olhando para os dados de sua pesquisa, a composição racial do ato corresponde aproximadamente à composição racial da cidade.

Finalmente, uma narrativa que circulou fortemente nas redes sociais, procurando canalizar a percepção do ato para o anti-petismo, que desde o impeachment da presidente Dilma tem sido um dos pilares da construção de um movimento de massas contra as agendas identificadas como "de esquerda", foi a leitura de que se tratou de um ato de "petistas".

Novamente aqui recorremos aos números apresentados pela pesquisa de Pablo Ortellado para contradizer esta narrativa: a pesquisa mostra que apenas um terço dos manifestantes do dia 29/09 são militantes ou simpatizantes do PT. Estávamos presentes simpatizantes de um amplo espectro partidário e, inclusive,  20% dos quais não simpatizam nem se identificam com nenhum partido político.

Ao observar as fotos e vídeos dos atos que circularam no facebook é possível identificar que se tratou de um ato predominantemente feminista, agregando mulheres e homens que consideram que é necessário defender valores como a não discriminação por raça, gênero, a igualdade perante à lei, o uso dos meios legais no Estado de Direito para lidar com os conflitos, a paz e a não-violência.

É  justamente esta agenda que se quer calar nas leituras deslegitimadoras e reducionistas. Para que a construção de uma alternativa baseada na construção de um bode expiatório (o PT, a "esquerda") associado a uma máquina de guerra possa triunfar. Isto se chama fascismo. E sabemos como e onde pode terminar.

Sobre a autora

Raquel Rolnik é arquiteta e urbanista, é professora titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Foi diretora de planejamento da Secretaria Municipal de Planejamento de São Paulo(1989-92), Secretária Nacional de Programas Urbanos do Ministério das Cidades (2003-07) entre outras atividades ligadas ao setor público. De 2008 a 2014 foi relatora especial da ONU para o Direito à Moradia Adequada. Atuou como colunista de urbanismo da Rádio CBN-SP, Band News FM e Rádio Nacional, e do jornal Folha de S.Paulo, mantendo hoje coluna na Rádio USP e em sua página Raquel Rolnik. É autora, entre outros, de “A cidade e a lei: legislação, política urbana e territórios na cidade de São Paulo” (Studio Nobel, 1997), “Guerra dos lugares: a colonização da terra e da moradia na era das finanças (Boitempo, 2016) e “Territórios em Conflito - São Paulo: espaço, história e política” (Editora três estrelas, 2017).