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A Cidade é Nossa

A Cidade é Nossa

A colonização do território virtual e o trágico exemplo das eleições

Raquel Rolnik

2022-10-20T18:07:00

22/10/2018 07h00

Por Raquel Rolnik e Andre Deak*

Muitos de nós vimos a internet chegar nas casas das pessoas com esperança. Pensamos que finalmente poderia ter surgido uma tecnologia para apoiar e promover a democracia em seus mais amplos sentidos. Cultura, educação e comunicação para todos, em todos os lugares, em um click. No entanto, décadas depois do lançamento da web, o espaço virtual da rede foi ocupado pelo poder econômico. Simples assim.

Mais um território, desta vez virtual, foi conquistado com o objetivo único e exclusivo de gerar lucros para empresas e rendimentos para seus capitais. Agora, não são mais Estados-Nação ocupando territórios que alimentam suas empresas de metais preciosos, matéria-prima e força de trabalho. Hoje a força colonizadora apresenta-se na forma de corporações, grupos econômicos e gestores de finanças globais que estão além e sobre os países e buscam acumular fortunas com a garantia de que jamais serão regulados por qualquer força – inclusive governos. E a internet segue de muitas formas uma terra sem lei.

A história desta ocupação é a seguinte: empresas e grupos econômicos têm se mobilizado ao redor do mundo para controlar os territórios virtuais e, com isso, pressionar populações inteiras para que façam determinadas escolhas, de consumo e também políticas. O chamado "marketing segmentado" ou a possibilidade de direcionar mensagens promovendo a compra de produtos direcionadas diretamente para perfis específicos de consumidores, aliados à gestão empresarial e mercantil das plataformas, transformou cada cidadão – sem querer e sem saber – em uma fonte de informações preciosas para quem tem dinheiro suficiente para "minerar" estas informações.

A expressão "mineração de dados" não é casual e nos ajuda a entender a analogia que fazemos aqui com as velhas táticas de colonização. Cada vez que damos um click na internet nossos movimentos são registrados, configurando assim nossas tendências ou preferências. Em seguida, nossos dados – nossos desejos e expressões – são literalmente roubados (porque nunca nos consultaram se queremos compartilhá-los muito menos dá-los) por empresas especializadas em agrupá-los em pacotes e vendidos para quem deseja enviar informação segmentada. Quem, depois de procurar uma passagem para um determinado destino, não recebeu por semanas propagandas relacionadas a este lugar?

Alguém poderia dizer que podemos disseminar livremente nossos conteúdos, e portanto também atingir grandes públicos. Essa era justamente nossa ilusão inicial. O alcance das mensagens que postamos não está na qualidade do que produzimos, mas nos recursos financeiros de impulsionamento destas mensagens. Circulam as mensagens que foram mais bem pagas, seja através de robôs, de recursos de impulsionamento massivo via whatsapp, ou pagamentos diretos para o Facebook ou Google. Ou seja, como na velha colonização dos séculos precedentes, ocupa o território virtual quem tem maior poder econômico.

Este instrumental e estas lógicas presentes no cotidiano das redes estão presentes também na disputa eleitoral. As eleições de Trump nos Estados Unidos e o Brexit no Reino Unido são dois exemplos recentes onde as redes foram intensamente mobilizadas, inclusive com uso massivo de fake news veiculadas pela rede. Ora, há tempos conhecemos eleições que funcionam como venda de produtos – campanhas lideradas por marqueteiros, campanhas financiadas com muito dinheiro para pagar não apenas marqueteiros, mas também cabos eleitorais, distribuidores de folhetos, etc. Aliás, foi exatamente contra este abuso do poder econômico e seus efeitos perversos na relação entre o Estado e as empresas que financiam campanhas que toda esta cruzada moral anti-corrupção no Brasil se levantou.

Pois o que estamos assistindo nas eleições no Brasil é bem pior do que isso. Óbvio que as pessoas não são simplesmente manipuladas a fazerem o que não querem – e justamente por isso as campanhas trabalham com sentimentos tão profundos como o medo e o ódio, e se utilizam de ferramentas em que as mensagens circulam dentro de grupos próximos, como amigos, famílias ou comunidades de afinidades. Ficou bastante conhecido o escândalo da empresa Cambridge Analytica que, a partir de milhões de perfis de Facebook, classificou as pessoas em níveis psicológicos (patriota, progressista, emocional, por exemplo) e agiu com o bombardeio de informações de acordo com o que cada pessoa era mais suscetível, instaurando ações que por serem político-afetivas são muito mais profundas e poderosas.

Aqui, a Polícia Federal acaba de abrir investigação sobre denúncia de esquemas de disseminação massiva de fake news via WhatsApp, ao custo de milhões, pagos por empresários apoiadores de Bolsonaro sem declaração de que seria doação de campanha, o que poderia inclusive ser configurado como crime eleitoral. A situação é crítica. Se antes reclamávamos que a comunicação estava na mão de seis ou sete famílias, agora praticamente duas empresas detém a maior parte da atenção do público: Google (dono do YouTube, mas também do sistema Android, instalado em 93,2% dos celulares no Brasil) e Facebook (dono também do WhatsApp e do Instagram, dois dos aplicativos mais usados no Brasil). O Estado, antes mediador do espaço público através de concessões de rádio e TVs, tornou-se incapaz de barrar uma campanha massiva de desinformação. E o que o capital transnacional justamente espera é que o Estado jamais reivindique esse poder.

Assim, não é à toa que Jair Bolsonaro, durante todo o seu mandato como deputado, propôs dezenas de projetos ligados a assuntos militares, com duas exceções. "Duas propostas, do começo de 2017, fugiam completamente da sua atuação parlamentar. As duas beneficiavam o Whatsapp", mostra o levantamento feito pelo jornalista e pesquisador Leandro Beguoci. As propostas eram para que, basicamente, o WhatsApp tivesse mais liberdade, mesmo quando fosse utilizado como uma ferramenta anti-democrática por grupos interessados em espalhar notícias falsas. Beguoci conta ainda que, ao revelar suas descobertas no Twitter e Facebook, foi atacado por dezenas de perfis com discursos similares, quando não idênticos.

Na versão brasileira da colonização da web, não é por acaso que vemos a mesma cultura e a mesma linguagem dos que antes já ocuparam nosso território. Aproveitando a terra sem lei que constitui este espaço virtual – e mais uma vez a violência, o medo e o terror que constituem as armas. De novo, também, a lógica do jagunço, do caçador de índios, do vendedor de corpos negros, do feitor. Com a ajuda e sustentação daqueles que se identificaram e aderiram ao discurso do opressor, colando na idéia da eliminação do inimigo. O gentio, o não-humano, o não-cristão. Agora vale tudo "para tirar o PT".

Como pessoas físicas, renunciamos à propriedade de nossos desejos e emoções, que, usurpadas, irão, no final das contas, garantir que o poder econômico mais uma vez prevaleça. Nesse cenário, assistimos estupefatos à omissão do Judiciário, tão ativista em outros tempos no combate ao abuso do poder político e econômico para garantir o Estado Democrático de Direito.

Neste momento, entretanto, temos uma enorme força em nossas mãos: o poder de nosso voto, no dia 28 de outubro, contra a armadilha representada por Bolsonaro, que promete mudanças, mas apenas transmuta sua forma de corrupção em outra, virulenta e mobilizadora do ódio e da força bruta. O seu voto poderá ser decisivo para que possamos seguir lutando pela propriedade de nossos dados, para que possamos seguir nos defendendo contra a colonização do nosso território virtual.

*Andre Deak é mestre em teoria da comunicação pela ECA-USP e doutorando em design pela FAUUSP.

Sobre a autora

Raquel Rolnik é arquiteta e urbanista, é professora titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Foi diretora de planejamento da Secretaria Municipal de Planejamento de São Paulo(1989-92), Secretária Nacional de Programas Urbanos do Ministério das Cidades (2003-07) entre outras atividades ligadas ao setor público. De 2008 a 2014 foi relatora especial da ONU para o Direito à Moradia Adequada. Atuou como colunista de urbanismo da Rádio CBN-SP, Band News FM e Rádio Nacional, e do jornal Folha de S.Paulo, mantendo hoje coluna na Rádio USP e em sua página Raquel Rolnik. É autora, entre outros, de “A cidade e a lei: legislação, política urbana e territórios na cidade de São Paulo” (Studio Nobel, 1997), “Guerra dos lugares: a colonização da terra e da moradia na era das finanças (Boitempo, 2016) e “Territórios em Conflito - São Paulo: espaço, história e política” (Editora três estrelas, 2017).