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A Cidade é Nossa

A Cidade é Nossa

Em Reikjavik ou em São Paulo, sem as mulheres a cidade para

Raquel Rolnik

2008-03-20T19:08:48

08/03/2019 08h48

Hoje, oito de março, nós mulheres agradecemos as homenagens, as flores e os bombons, mas em cidades de mais de 170 países decretamos a greve feminista. A manifestação remete a 1975, quando mais de 90% das mulheres de Reikjavík, na Islândia, decidiram tirar um dia de folga de seus postos de trabalho nas escolas, creches, hospitais, escritórios, lojas  e tomaram a praça central clamando por igualdade.

Naquele dia sequer os jornais vespertinos foram impressos. No lugar das mulheres, os homens tiveram que assumir os cuidados com as crianças, preparando suas refeições, levando-as junto com eles em seus trabalhos, já que as mães e cuidadoras não estavam a postos assumindo integralmente suas duplas triplas jornadas  do cotidiano. Naquele ano na Islândia, embora às mulheres fosse assegurado o direito de votar desde 1915, apenas três ocupavam assentos no Parlamento. Nas eleições seguintes, entretanto, cinco anos depois, o país elegeu pela primeira vez uma mulher presidenta, Vigdis Finnbogadottir.

E no Brasil, em que condições vivem as mulheres? De acordo com o IBGE, em seu levantamento Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil, considerando o indicador "proporção de ocupados em trabalho por tempo parcial", por sexo, é mais elevado o percentual de mulheres (28,2%) que trabalha em período parcial, de até 30 horas, quando comparado com os homens (14,1%).

Não é de se espantar, já que o cuidado com os outros, sejam eles crianças, doentes ou idosos, é atribuído majoritamente às mulheres. Em 2016, aponta o levantamento do IBGE, as mulheres dedicaram aos cuidados de pessoas e/ou afazeres domésticos cerca de 73% a mais de horas do que os homens (18,1 horas contra 10,5 horas). Com seu tempo comprometido, sobra menos para o trabalho remunerado, e ele equivale a cerca de ¾ do que os homens recebem.

Outro estudo, este realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), revelou que 23% dos jovens brasileiros não trabalham e nem estudam. Conhecidos como nem-nem, apenas 3% destes podem ser considerados inativos. São em sua maioria mulheres, e de baixa renda, realizando atividades produtivas em seus lares, mas não tendo estas atividades reconhecidas nem como trabalhos e muito menos produtivos.

Confinadas no mundo doméstico, nem por isto estamos protegidas da violência. Pelo contrário: dentro e fora de casa, mulheres brasileiras são vítimas da violência: feminicídio, violência doméstica, o horror do assédio e abuso que faz com que simplesmente meninas e mulheres tenham medo de circular pela cidade.

De acordo com a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), o Brasil concentrou 40% dos feminicídios da América Latina em 2017. Segundo a organização, até o dia 4 de fevereiro 126 mulheres foram mortas. Além disso, foram registradas 67 tentativas de homicídio. 

"Os assassinatos de mulheres não são um problema isolado, e sim sintomas de um padrão de violência de gênero contra elas em todo o país, resultado de valores machistas profundamente arraigados na sociedade brasileira", afirma a CIDH. E quem mais corre risco de vida são as mulheres pertencentes a grupos étnico-raciais, ou por sua orientação sexual, identidade de gênero, situação de mobilidade. É mais elevado também entre as que vivem em situação de pobreza, as que atuam na política, as jornalistas e as defensoras dos direitos humanos.

Os números deixam patente: nosso trabalho é invisível, nossa presença no espaço público cerceada, mas sustentamos e cuidamos da cidade. Carregamos o ônus da moradia inadequada, do transporte de quinta, da inexistência ou ineficácia das políticas públicas que apoiem o cuidado coletivo de crianças , doentes, loucos e idosos.

Agradecemos os bombons e as flores, mas queremos mais, muito mais: a responsabilidade compartilhada no cuidado com a casa, das crianças, dos doentes e dos idosos. Igualdade de oportunidades e de salários no mercado de trabalho. A divisão do trabalho doméstico. Queremos maior participação nos processos decisórios. Queremos ter direito pleno à cidade. Não começamos hoje, não é hoje que vamos parar.

Viva a greve feminista!

 

 

Sobre a autora

Raquel Rolnik é arquiteta e urbanista, é professora titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Foi diretora de planejamento da Secretaria Municipal de Planejamento de São Paulo(1989-92), Secretária Nacional de Programas Urbanos do Ministério das Cidades (2003-07) entre outras atividades ligadas ao setor público. De 2008 a 2014 foi relatora especial da ONU para o Direito à Moradia Adequada. Atuou como colunista de urbanismo da Rádio CBN-SP, Band News FM e Rádio Nacional, e do jornal Folha de S.Paulo, mantendo hoje coluna na Rádio USP e em sua página Raquel Rolnik. É autora, entre outros, de “A cidade e a lei: legislação, política urbana e territórios na cidade de São Paulo” (Studio Nobel, 1997), “Guerra dos lugares: a colonização da terra e da moradia na era das finanças (Boitempo, 2016) e “Territórios em Conflito - São Paulo: espaço, história e política” (Editora três estrelas, 2017).