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A Cidade é Nossa

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Jogos Olímpicos 2028 em Los Angeles, promessas para uns, terror para outros

Raquel Rolnik

21/08/2019 16h12

Quando, em setembro de 2017, o Comitê Olímpico Internacional (COI) anunciou que as cidades-sede dos Jogos Olímpicos de 2024 e 2028 seriam respectivamente Paris e Los Angeles, estas eram as únicas candidatas à disputa, posto que Roma e Budapeste desistiram de concorrer. Mas a verdade é que sequer podemos dizer que houve uma disputa, considerando o incentivo que o COI fez, em recursos, para que Los Angeles retirasse a candidatura para 2024, com a garantia de que seria a sede em 2028.

Para a população da cidade, o prefeito e o grupo que preparou a candidatura argumentaram que os Jogos só trariam benefícios, já que a cidade foi sede das Olimpíadas e não haveria, portanto, a necessidade de construção de equipamentos esportivos novos. Dessa forma procuravam responder às críticas que os Jogos Olímpicos vêm recebendo de várias cidades do mundo em relação a gastos vultosos de prioridade questionável.

Outro argumento, de que não seria necessária a construção de vilas olímpicas, uma vez que os atletas ficariam abrigados na residência estudantil da UCLA (Universidade de Califórnia), em Los Angeles, também ajudou a convencer a Câmara Municipal a apoiar a realização do mega evento – segundo os parlamentares, a "custo zero".

A narrativa, entretanto, não convenceu toda a população da cidade.

Nascido a partir do processo de avaliação do que aconteceu na cidade nas duas ocasiões em que sediou os Jogos Olímpicos, nos anos de 1932 e 1984, o movimento NOOLYMPICS tenta impedir que os Jogos Olímpicos aconteçam, apontando para os efeitos perversos, especialmente no tema da moradia, que tem nos números de homeless (pessoas vivendo em situação de rua) um recorde histórico.

Foram as Olimpíadas de Los Angeles de 1984 que marcaram a entrada do setor corporativo, momento em que os anunciantes ganharam uma maior importância não apenas no financiamento do evento, mas também na lógica de sua organização. Um dos elementos centrais dessa nova era foi a projeção da imagem televisiva e sua distribuição. E em LA 84 a própria cidade, e a forma de mostrá-la, conectando os vários locais onde as competições aconteceriam, fez parte da estratégia.

Foi nesse momento que a municipalidade montou uma das maiores operações de limpeza social de que se tem notícia, armando uma verdadeira ocupação militar das ruas. Por meio da LAPD (Polícia de Los Angeles), o Estado exerceu uma lógica muito agressiva de controle sobre os grupos que ocupavam as ruas, quer fossem trabalhadores sexuais, quer fossem pessoas sem teto. O resultado foram milhares de prisões, internações compulsórias e deportações, inaugurando um procedimento de repressão e vigilância que, depois de 1984, nunca mais foi desmontado.

Há quem inclusive atribua a violência desta estratégia às grandes revoltas de rua que ocorreram na cidade em 1992, que ficaram conhecidas como LA riots. Críticos também apontam esta política como ineficaz para resolver o problema, já que se limpa as ruas, mas o problema da moradia não é resolvido e há um temor que a nova política possa ser ainda mais repressiva.

Mas há também uma crítica muito forte e significativa a Los Angeles receber os Jogos Olímpicos por parte dos movimentos de moradia, já que a escolha da cidade como sede do mega evento privilegiará a construção de hotéis, e não de moradia. Há o caso inclusive de um dos projetos anunciados como iniciativas ligadas à preparação da cidade para os Jogos – batizado Figueroa – que vai destruir apartamentos cujo aluguel é controlado, sem que novas moradias sejam efetivamente acessíveis para quem sair dali.

"Precisamos de moradia, não de hotéis" é uma das palavras de ordem dos movimentos que questionam as medidas, apontando ainda que nenhum plano claro foi anunciado para que os Jogos Olímpicos possam efetivamente ajudar a melhorar a situação habitacional da cidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Raquel Rolnik é arquiteta e urbanista, é professora titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Foi diretora de planejamento da Secretaria Municipal de Planejamento de São Paulo(1989-92), Secretária Nacional de Programas Urbanos do Ministério das Cidades (2003-07) entre outras atividades ligadas ao setor público. De 2008 a 2014 foi relatora especial da ONU para o Direito à Moradia Adequada. Atuou como colunista de urbanismo da Rádio CBN-SP, Band News FM e Rádio Nacional, e do jornal Folha de S.Paulo, mantendo hoje coluna na Rádio USP e em sua página Raquel Rolnik. É autora, entre outros, de “A cidade e a lei: legislação, política urbana e territórios na cidade de São Paulo” (Studio Nobel, 1997), “Guerra dos lugares: a colonização da terra e da moradia na era das finanças (Boitempo, 2016) e “Territórios em Conflito - São Paulo: espaço, história e política” (Editora três estrelas, 2017).

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