PUBLICIDADE
Topo

Incidente no monotrilho é apenas um dos desastres envolvendo o modal

Raquel Rolnik

13/03/2020 15h14

Com o ônibus oferecido pelo metrô, percurso de 20 minutos pode levar mais de hora. Fonte: Metrô/ Divulgação

No mês de março, a Linha 15-prata do metrô, que atende uma das regiões mais populosas da cidade, ainda não funcionou. No dia 27 de fevereiro, um  pneu do monotrilho estourou e um pedaço do sistema run flat (uma roda metálica) caiu de 15 metros de altura sobre a Avenida Sapopemba, uma das mais movimentadas da Zona Leste. Desde então, a canadense Bombardier, responsável pelos trens e integrante do consórcio que construiu a linha,  faz uma série de testes, mas a divulgação do relatório e as medidas a serem tomadas não tem sequer previsão. Para quem dependia da Linha 15, trajetos de 20 minutos passaram a levar mais de uma hora, já que estão sendo feitos por ônibus disponibilizados pela companhia do Metrô. 

A história deste monotrilho, e, de uma forma geral do transporte público de massa para a Cidade Tiradentes — que em tese deveria ser o destino final da linha 15 — é cheia de percalços, anúncios e improvisações.  Ainda na década passada, foi anunciada uma linha de metrô que iria até Cidade Tiradentes. Essa promessa, mudou e mudou, até se tornar em 2009 o monotrilho de agora — "mais rápido e mais barato", segundo o governo. Dez anos se passaram até o monotrilho chegar a São Mateus custando mais de 5 bilhões de reais.

Além dos atrasos e sobrecustos, o desempenho deste modal tem decepcionado de várias maneiras. Técnicos do Metrô contestam a qualidade de construção das vigas-trilho que sustentam os trens. Segundo eles, a vibração dentro dos vagões nunca foi normal, nem parecida com a que ocorre nas linhas equivalentes chinesas. Além disso, o impacto paisagístico e urbanístico de uma estrutura construída a 15 metros de altura rasgando áreas ocupadas é inevitável. Implantar um monotrilho em áreas vazias, antes de serem ocupadas é uma coisa, avançar sobre áreas consolidadas é totalmente diferente. Há também uma contestação quanto a capacidade de carregamento da linha frente a demanda dessa área, uma das mais densas da cidade. E isso porque o monotrilho não chegou – e talvez não chegará nunca – à Cidade Tiradentes.

Nesse local onde foram assentados milhares de pessoas em conjuntos habitacionais públicos, que geraram uma enorme demanda de transporte coletivo, as respostas foram erráticas. Ainda em tempos de Maluf na prefeitura e seu sucessor Celso Pitta, foi apresentado o Fura-fila. Marta Suplicy herdou o empreendimento, o rebatizou de Paulistão, mas o chamou de "bagaceira", frente aos imprevistos da obra. Na gestão de José Serra, o corredor elevado de ônibus recebeu o nome Expresso Tiradentes, prometendo ligar a região ao Parque D. Pedro, o que não ocorreu até o momento — parou na Vila Prudente.

Trajeto recomendado pelo Google do Parque D. Pedro à Cidade Tiradentes. Fonte: Google Maps

Nessa toada, o monotrilho foi prometido, substituindo o tal do "Expresso Tiradentes" e seria interligado às linhas de metrô. O projeto original logo foi abandonado e a Linha-15 Prata chegaria só ao Jardim Colonial. Enquanto operava, era a linha do Metrô com maior intervalo de tempo entre viagens.

Agora com o acidente, novas expansões parecem improváveis. E assim, o sistema de transporte coletivo de massa ao invés de obedecer a um planejamento que dialoga claramente com as demandas, vai apresentando respostas eleitorais ,mas incertas, para quem mais precisa.

Sobre a autora

Raquel Rolnik é arquiteta e urbanista, é professora titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Foi diretora de planejamento da Secretaria Municipal de Planejamento de São Paulo(1989-92), Secretária Nacional de Programas Urbanos do Ministério das Cidades (2003-07) entre outras atividades ligadas ao setor público. De 2008 a 2014 foi relatora especial da ONU para o Direito à Moradia Adequada. Atuou como colunista de urbanismo da Rádio CBN-SP, Band News FM e Rádio Nacional, e do jornal Folha de S.Paulo, mantendo hoje coluna na Rádio USP e em sua página Raquel Rolnik. É autora, entre outros, de “A cidade e a lei: legislação, política urbana e territórios na cidade de São Paulo” (Studio Nobel, 1997), “Guerra dos lugares: a colonização da terra e da moradia na era das finanças (Boitempo, 2016) e “Territórios em Conflito - São Paulo: espaço, história e política” (Editora três estrelas, 2017).