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A Cidade é Nossa

Aprofundando a geografia eleitoral: o voto no primeiro turno em São Paulo

Raquel Rolnik

20/11/2020 13h52

*Por Aluízio Marino, Paula Santoro, Pedro Mendonça e Raquel Rolnik

Logo após o término da votação do primeiro turno das eleições municipais, passaram a circular mapas produzidos por veículos de mídia que mostravam a totalização dos votos por zonas eleitorais. Na capital paulista, esses mapas apontam a vitória do candidato Bruno Covas (PSDB) em toda a cidade, representada por um grande mapa azul. Entretanto, esta representação cartográfica das eleições conduz a uma leitura simplificadora dos resultados, que ignora nuances importantes sobre como se dá a territorialização do voto — não apenas em São Paulo e no Brasil, vide o exemplo das eleições estadunidenses que discutimos em post anterior. Para complexificar essa geografia dos votos e se aproximar da realidade eleitoral paulistana, é necessário explorar outras escalas e simbolizações que representem de forma mais detalhada o voto, que é dos cidadãos e não de porções do território. Aqui, a partir dos dados oficiais fornecidos pelo Tribunal Superior Eleitoral, produzimos uma série de mapas na escala mais próxima possível dos locais de votação procurando aprofundar alguns temas.

Um dos fenômenos apontados pela imprensa nesta eleição foi a grande quantidade de abstenções, ou seja, de eleitores que não foram votar no dia 15/11. No caso de São Paulo este número chega a 29,3%. Se considerarmos também os votos brancos e nulos nesta análise, 40% do total de eleitores habilitados ou não foram votar ou não escolheram um candidato, o que deixa as possibilidades do segundo turno em aberto.

Historicamente, as eleições para prefeito e vereador contam com um alto percentual de abstenção, o que confirma a  hipótese de que este número aumentaria em uma eleição no meio da pandemia de Covid-19.  O que não foi explorado ainda é se existe uma lógica territorial nessas abstenções.  Os mapas abaixo mostram a variação do percentual de abstenções (dentre os eleitores aptos) e votos brancos e nulos (dentre os votos totais) entre as eleições de 2018 e 2020, para os pleitos de Presidência da República e Prefeitura respectivamente.

Elaboração: Pedro Mendonça/LabCidade

Elaboração: Pedro Mendonça/LabCidade

Observamos um crescimento maior das abstenções no centro expandido, o que corresponde também aos locais onde as pessoas tinham mais possibilidade de aderir ao isolamento social e ao teletrabalho. Essa nova rotina de cuidado, realidade de uma porção da cidade, combinada a um maior percentual de eleitores idosos nesta região, pode ter influenciado a decisão de não sair de casa para votar. Já sobre o mapa dos votos brancos e nulos (inválidos), vemos um crescimento maior nas bordas do centro, mais especificamente nas regiões da Vila Prudente, Mooca, Tatuapé, Vila Maria e Santana, dado que brancos e nulos já marcam a paisagem eleitoral das extremas periferias há várias eleições. A adesão ao voto branco e nulo não corresponde ao local de maiores abstenções, indicando que tratam-se de opções políticas bastante distintas.

Em relação aos resultados eleitorais para prefeito da capital, ainda que Covas tenha tido uma votação expressiva de forma dispersa por toda a cidade, obteve votos de forma mais concentrada no centro consolidado e numa mancha, presente já há algumas eleições, que ultrapassa as marginais e o Vale do Tamanduateí  e se expande para antigas áreas populares nas Zona Norte e Sul e Leste, regiões que ascenderam economicamente e hoje abrigam uma nova classe média e alta.  Nas periferias mais extremas Covas teve proporção de votos menor, vencendo com margens menores em relação ao 2º e 3º colocados.

Elaboração: Pedro Mendonça/LabCidade

Uma lupa sobre o mapa do voto em Bruno Covas mostra que este venceu em todas as zonas eleitorais — como apareceu no mapa todo azul divulgado na imprensa. Mas, mergulhando nos dados por seção, observamos que ele na verdade não ganhou em todos os locais de votação. O mapa interativo mostra como se deu a votação por colégio eleitoral, revelando situações de quase empate e, inclusive, situações de vitória de outros candidatos. 

Elaboração: Pedro Mendonça/LabCidade

As gradações também permitem sair de uma narrativa política clássica que marcou a cidade, a de que, supostamente, o centro consolidado rico votaria no PSDB e a periferia no PT. Contra esta narrativa, a virada da periferia seria a novidade da eleição desde 2018. Essa separação é enganosa: há uma região que tem se consolidado em pleno centro expandido, nas regiões do espigão (Lapa, Perdizes, Paulista, Vila Mariana) e no eixo da Av. Rebouças, com votação expressiva em Boulos (PSOL), e onde também se concentraram os votos em Ciro Gomes (PDT) na eleição de 2018

Elaboração: Pedro Mendonça/LabCidade

Por outro lado, há uma divisão no próprio voto à direita. Embora persista uma mancha mais concentrada do voto conservador no chamado centro consolidado, este espaço também passou a ser disputado com uma "nova direita", representada nestas eleições por Arthur do Val Mamãe Falei (Patriotas) e Joice Hasselmann (PSL), e que coincide também  com as regiões onde houve maior crescimento dos votos brancos e nulos. 

Por fim, a "periferia" também é mais complexa: é em setores da periferia que Russomanno (Republicanos) teve seus maiores percentuais. E é também em (outros) setores da periferia que Tatto foi o segundo colocado, e onde também Boulos teve votação muito expressiva, como Campo Limpo e Capão Redondo.

Veja abaixo os mapas dos candidatos com votação expressiva (>5% dos votos válidos) e confira aqui o mapa interativo dos locais de votação, com totais de cada candidatura à prefeitura.

* Doutorando na UFABC, pesquisador do LabCidade; Professora da FAU-USP, coordenadora do LabCidade; Graduando na FAU-USP, pesquisador do LabCidade; Professora na FAU-USP, coordenadora do LabCidade. Texto originalmente publicado no site do LabCidade FAU-USP

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Raquel Rolnik é arquiteta e urbanista, é professora titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Foi diretora de planejamento da Secretaria Municipal de Planejamento de São Paulo(1989-92), Secretária Nacional de Programas Urbanos do Ministério das Cidades (2003-07) entre outras atividades ligadas ao setor público. De 2008 a 2014 foi relatora especial da ONU para o Direito à Moradia Adequada. Atuou como colunista de urbanismo da Rádio CBN-SP, Band News FM e Rádio Nacional, e do jornal Folha de S.Paulo, mantendo hoje coluna na Rádio USP e em sua página Raquel Rolnik. É autora, entre outros, de “A cidade e a lei: legislação, política urbana e territórios na cidade de São Paulo” (Studio Nobel, 1997), “Guerra dos lugares: a colonização da terra e da moradia na era das finanças (Boitempo, 2016) e “Territórios em Conflito - São Paulo: espaço, história e política” (Editora três estrelas, 2017).