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A Cidade é Nossa

A redistribuição dos votos no segundo turno em São Paulo

Raquel Rolnik

10/12/2020 10h08


Pedro Mendonça, Aluízio Marino, Raquel Rolnik, Paula Santoro, Gisele Brito e Débora Ungaretti *

Recentemente publicamos uma análise territorial do voto no segundo turno para prefeito na cidade de São Paulo. Nela criticamos uma ideia sustentada por mapas que circularam na mídia e nas redes sociais: a de que o cenário político da cidade estaria estagnado desde 2018. Esta concepção reducionista da dinâmica eleitoral apontava que a divisão do votos Covas/Boulos no segundo turno municipal de 2020 reproduzia exatamente a divisão Bolsonaro/Haddad no segundo turno presidencial de 2018. Já apontamos no texto anterior os problemas dessa visão. Agora, com os dados por local de votação divulgados pelo TSE na última quarta-feira, podemos explorar em mais detalhes como foi a dinâmica de redistribuição do voto do primeiro para o segundo turno, e com isso observar outros elementos que a narrativa da estagnação não revela. 

Começamos pela variação das abstenções, brancos e nulos, que aconteceu de forma heterogênea na cidade. Os mapas de barras mostram a variação do percentual da soma de votos não-válidos e abstenções, e estão em escala comparável entre si e com nossos mapas do primeiro turno. 

Houve um aumento geral na proporção de votos válidos (aqueles que desconsideram brancos e nulos) sobre os votos totais e em algumas regiões também houve diminuição da abstenção. Ao combinarmos abstenções, brancos e nulos em ambos os turnos, temos um mapa da variação das "não-escolhas" de eleitores, ou seja, aqueles que não votaram em nenhum candidato. Nessa representação, valores negativos indicam uma diminuição das não-escolhas, pessoas que não votaram em candidato algum no primeiro turno e que escolheram entre Covas e Boulos no segundo.

Apesar da variação pequena em relação ao primeiro turno, entre -2% e +2%, a mudança entre turnos tem uma distribuição espacial bem clara. Na Zona Sul,  em especial na região de Jardim Ângela, Capão Redondo e Jardim São Luís, e em bairros da Zona Oeste, como Jardins e Vila Madalena, mais pessoas passaram a votar em um candidato. Já na Zona Leste, com foco nos bairros do norte desta região, ocorre o movimento oposto: cresce o número de eleitores que deixaram de votar em algum candidato. 

Os resultados eleitorais por local de votação também nos permitem observar o crescimento dos dois candidatos em relação aos votos que receberam no primeiro turno. Os pares de mapas estão graduados na mesma escala para permitir comparações. Boulos apresenta um crescimento acentuado e concentrado nas áreas periféricas. Como apresentamos anteriormente, o candidato havia conseguido no primeiro turno mais votos na região central, em bairros ao longo do espigão da Avenida Paulista, da Av. Domingos de Morais e da Av. Rebouças. Essas regiões não apresentaram crescimento expressivo do candidato no segundo turno, indicando saturação do eleitorado já no primeiro turno. Já Covas apresenta um crescimento homogêneo em toda a cidade.

Podemos estender a leitura sobre crescimento entre turnos ao observar os efeitos dos  apoios oficiais de candidaturas. Os mapas a seguir apresentam o crescimento de Covas e Boulos em relação à soma dos votos dos candidatos derrotados no primeiro turno que declararam apoio para o segundo. Ou seja: trata-se de uma cartografia dos locais onde Covas e Boulos capturaram (ou não) votos para além da coalização oficial formada no segundo turno. Se os votos somados de todos os candidatos que compuseram a coalizão do segundo turno for igual pelo candidato no segundo turno, o valor da proporção é de 100%; no caso de expansão para além da coalizão de apoio, o valor está acima de 100%. Fica abaixo de 100% se o candidato não conseguiu trazer os votos dos apoiadores.

Vemos que Boulos conseguiu ampliar territorialmente sua base, capturando votos nas periferias para além da coalizão – considerando os apoios oficiais de Jilmar Tatto (PT), Marina Helou (Rede), Orlando Silva (PCdoB) e apoio crítico de Vera Lúcia (PSTU), além dos votos que ele próprio obteve no primeiro turno. Como a proporção é mais de 100%, essa expansão se deve tanto à captura de votos brancos e nulos quanto aos votos "virados". Uma hipótese para explicar a concentração espacial do crescimento é a presença de apoios locais na campanha, que podem ter capturado parte dos eleitores da periferia que votaram em Covas e Márcio França no primeiro turno. Observamos também uma correspondência espacial entre a expansão de Boulos além de sua base e as regiões que concentraram votos em Celso Russomanno no primeiro turno. O candidato do Republicanos, que teve o seu melhor desempenho nas bordas da cidade, declarou apoio a Covas no segundo turno. Apesar de que a simples leitura territorial dos votos não nos permite afirmar se os novos eleitores de Boulos votaram em Russomanno no primeiro turno, a coincidência espacial mostra que a campanha Boulos/Erundina alcançou áreas que votaram majoritariamente em Russomanno.

Bruno Covas também ampliou a sua base para além dos votos dos apoios oficiais – considerando ele mesmo, Joice Hasselmann (PSL), Andrea Matarazzo (PSD) e Celso Russomanno (Republicanos). A maior expansão do candidato ocorre nas bordas do centro expandido, como Santana, Vila Maria, Penha, Tatuapé, Mooca, Ipiranga, Campo Belo, e em partes da Zona Norte – Tucuruvi e Tremembé. A expansão de Covas também parece ser explicada pela conversão de votos de candidatos que não ofereceram apoio oficial, como Márcio França (PSB) e, especialmente, Arthur do Val (Patriotas), com quem ocorre mais precisa correspondência espacial. Do Val teve seu melhor desempenho justamente onde indicamos o maior crescimento de Covas no segundo turno, o que sugere maciça transferência de seus votos para Covas.

Em conjunto, os mapas indicam que os apoios políticos ou a falta deles não se traduzem em votos de forma automática. Boulos obteve um bom desempenho justamente onde o candidato apoiado por Bolsonaro (Russomanno) foi melhor, o que aponta para uma complexidade maior na leitura do chamado "voto da periferia". Por outro lado, Arthur do Val e Covas foram melhor em regiões que tiveram os mais altos percentuais do voto em Bolsonaro em 2018, mostrando que esse eleitorado da "nova direita" não acompanhou as indicações do presidente.

A análise espacial dos votos faz parte dos esforços do LabCidade de procurar aprofundar representações e entender mudanças nas dinâmicas político territoriais da cidade. Busca, com isso, fazer uma leitura que vá além daquela marcada por oposições binárias (como centro/periferia ou esquerda/direita) e que não parecem corresponder a realidades muito mais complexas que merecem ser melhor apontadas – e como agenda de pesquisa, melhor compreendidas.

**Graduando na FAU-USP e pesquisador do LabCidade; Doutorando na UFABC e pesquisador do LabCidade; Professora da FAU-USP e coordenadora do LabCidade; Mestranda na FAU-USP e pesquisadora do LabCidade; Professora da FAU-USP e coordenadora do LabCidade; Doutoranda na FAU – USP e pesquisadora do LabCidade. Texto originalmente publicado no site do LabCidade.

Sobre a autora

Raquel Rolnik é arquiteta e urbanista, é professora titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Foi diretora de planejamento da Secretaria Municipal de Planejamento de São Paulo(1989-92), Secretária Nacional de Programas Urbanos do Ministério das Cidades (2003-07) entre outras atividades ligadas ao setor público. De 2008 a 2014 foi relatora especial da ONU para o Direito à Moradia Adequada. Atuou como colunista de urbanismo da Rádio CBN-SP, Band News FM e Rádio Nacional, e do jornal Folha de S.Paulo, mantendo hoje coluna na Rádio USP e em sua página Raquel Rolnik. É autora, entre outros, de “A cidade e a lei: legislação, política urbana e territórios na cidade de São Paulo” (Studio Nobel, 1997), “Guerra dos lugares: a colonização da terra e da moradia na era das finanças (Boitempo, 2016) e “Territórios em Conflito - São Paulo: espaço, história e política” (Editora três estrelas, 2017).