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A Cidade é Nossa

A Cidade é Nossa

Mudanças no Bilhete Único vão na contramão da ampliação do acesso à cidade

Raquel Rolnik

2007-03-20T19:15:05

07/03/2019 15h05


O prefeito Bruno Covas publicou no dia 23 de fevereiro o Decreto 58.639 que altera várias regras do Bilhete Único na cidade de São Paulo: não serão mais válidos os Bilhetes Únicos sem identificação e o limite para utilização do carregamento foi reduzido. Mas a principal mudança é a redução do número de linhas que os cidadãos podem utilizar durante o período com o Bilhete Único.

Até a publicação deste decreto, era possível usar até quatro linhas em duas horas. No caso do Bilhete Integração, isto poderia incluir trens e metrô.

A partir deste decreto os usuários de vale-transporte só poderão embarcar em duas linhas de ônibus – ao invés de quatro.

Quem paga meia tarifa também só pode pegar duas conduções, mas isto já era assim desde o ano passado.

É importante entender essas medidas num âmbito mais amplo de mudanças que estão em andamento desde 2017 – e que, combinadas, vão reduzir drasticamente as possibilidades das pessoas circularem pela cidade, além de agravar os custos de transporte justamente para  a parcela da população que mais depende dele e menos tem condições de pagar.

O aumento da tarifa, implementado desde o início deste ano, como já comentamos aquifoi bem acima da inflação, maior do que o aumento do salário-mínimo e do rendimento médio dos trabalhadores. Este aumento  se combina com um corte de linhas que antes tinham início em bairros distantes e tinham como ponto final o centro expandido, destino final de boa parte das viagens. Muitas destas linhas já foram cortadas e integradas com estações de metrô ou corredores de ônibus, numa medida de racionalização do sistema, visando reduzir o número de ônibus em circulação nas vias principais, para aumentar sua velocidade de tráfego. O novo sistema, que acaba de anunciar os concessionários vencedores, inclusive prevê ampliar ainda mais as medidas deste tipo.   

Esta mudança, entretanto, implica que as pessoas que moram nos bairros mais distantes, nas periferias, vão precisar fazer mais integrações: por exemplo de uma van para um ônibus em um corredor e depois eventualmente outro ônibus ou van ou metrô. Mas com as mudanças nas regras de uso do Bilhete Único, elas não poderão pegar mais do que duas conduções dentro deste intervalo de três horas, sendo obrigadas a pagar mais uma tarifa. Que, é bom dizer mais uma vez, está mais cara.  

Ou seja, o resultado dessas mudanças combinadas é uma verdadeira  bomba de exclusão que vai na contramão da ampliação das possibilidades de plena circulação na cidade. É lamentável andar para trás, justamente quando, graças a esforços dos governos estadual e municipal, estávamos assistindo em São Paulo a uma ampliação do acesso à cidade, graças a expansão dos trilhos, corredores exclusivos, integração entre trens, metrô e ônibus e medidas operacionais como o Bilhete Único.  

CORREÇÃO

Na versão original deste texto aparecia a seguinte frase que não estava correta:

"A partir deste decreto, a permissão é para uso de até duas linhas num prazo de até três horas. A redução é válida também, desde o dia 1 de março, para os usuários do vale-transporte, pago pelo empregador a seus empregados."

Sobre a autora

Raquel Rolnik é arquiteta e urbanista, é professora titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Foi diretora de planejamento da Secretaria Municipal de Planejamento de São Paulo(1989-92), Secretária Nacional de Programas Urbanos do Ministério das Cidades (2003-07) entre outras atividades ligadas ao setor público. De 2008 a 2014 foi relatora especial da ONU para o Direito à Moradia Adequada. Atuou como colunista de urbanismo da Rádio CBN-SP, Band News FM e Rádio Nacional, e do jornal Folha de S.Paulo, mantendo hoje coluna na Rádio USP e em sua página Raquel Rolnik. É autora, entre outros, de “A cidade e a lei: legislação, política urbana e territórios na cidade de São Paulo” (Studio Nobel, 1997), “Guerra dos lugares: a colonização da terra e da moradia na era das finanças (Boitempo, 2016) e “Territórios em Conflito - São Paulo: espaço, história e política” (Editora três estrelas, 2017).